Interpretações Sociológicas sobre Capacitismo

E continuam as possibilidades de intervenção sociológica em torno das discussões críticas sobre Capacitismo.

Em 21 de setembro de 2020, data que se comemora o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, fui convidado a participar do evento virtual da Rede RS Paradesporto. A live contou com ativistas e pesquisadores, com e sem deficiência, para apontar e discutir temas sociopolíticos relevantes sobre a temática da deficiência. Aqui vocês podem ter acesso a live. Ao longo da minha fala experimentei sociologicamente pensarmos em dinâmicas “contra-capacitistas”.

Em 1/10/20 fui convidado pela Professora Relma Urel Carbone Carneiro, do departamento de Psicologia da Educação da UNESP – FCL/Ar, para uma conversa com seu Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Especial e Inclusiva – GEPEEI. Na oportunidade, pudemos estreitar laços em torno do interesse das educadoras especiais nos debates sociológicos sobre deficiência e capacitismo.

E no dia 28/10/20 participei do 14° Congresso Internacional da Rede Unida na atividade “Encontros Dissonantes: Dialogando sobre Capacitismo”. Foi uma ótima oportunidade de debater com ativistas e agentes de saúde sobre as dimensões sociológicas existentes sobre o capacitismo.

E no dia 28/10/20 participei do 14° Congresso Internacional da Rede Unida na atividade “Encontros Dissonantes: Dialogando sobre Capacitismo“. Foi uma ótima oportunidade de debater com ativistas e agentes de saúde sobre as dimensões sociológicas existentes sobre o capacitismo.

Debates Pandêmicos: Corpo e Deficiência

Folder do evento com as fotos dos pesquisadores e pesquisadoras, o tema da mesa e seus realizadores em fundo azul com faixa branca no rodapé.

Continuando a constante demanda por debates que interseccionem as dimensões epidêmicas e as desigualdades sociais, fui convidado a compor a mesa virtual: “Corpo, diferença e deficiência: (novos?) desafios na pandemia“. O evento, em forma de aula aberta, aconteceu em 18/09/20 e foi uma realização em parceria do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu (Cocen/Unicamp) e do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Socais da Diferença (PPGAS/USP), sob organização das pesquisadoras Regina Facchini (Pagu/Unicamp) e Carolina Parreiras (Numas/USP). Além da minha presença, tivemos as colocações das pesquisadoras e pesquisadores: Anahí Guedes de Mello, Carolina Branco Ferreira, Julian Simões, Pedro Lopes. A mediação foi de Anna Paula Vencato.

Alguns debates sociológicos sobre a noção de Capacitismo.

Salve, camaradas!

Como disse nessa postagem, tenho participado de algumas discussões e debates públicos sobre a ideia de Capacitismo. Minha tentativa tem sido a de traduzir sociologicamente esse conceito, que comumente é sinônimo de “opressão” ou “exclusão” das pessoas com deficiência. Por mais que as opressões, violências e exclusões sejam parte de lógicas discriminatórias, o capacitismo não se esgota enquanto um simples “sistema de dominação”. Em duas outras oportunidades recentes pude esboçar um pouco essa consideração do capacitismo não só como força que constringe e oprime, mas que também regula e produz relações sociais, culturais e subjetividades como se fossem naturalmente capazes ou incapazes.

Em 23 de junho de 2020 participei da transmissão “Anticapacitismo, politização da deficiência e acessibilidade cultural“, promovida pelo Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ através da programação do Navega UFRJ.

Em 24 de agosto pude participar do debate “Psicologia e Capacitismo: o que isso tem a ver?“, promovido pelo Conselho Regional de Psicologia da Bahia.

Ambos eventos contaram com pesquisadoras e ativistas com deficiência, discutindo suas interpretações sobre o capacitismo em interface com áreas da cultura, da saúde e da política.

Para se aprofundar mais nas temáticas sobre Capacitismo, desde uma perspectiva das Ciências Sociais, veja:

AVILA. E. S. (2014). Capacitismo como queerfobia. In.: Funck, S. B., Minella, L. S., Assis, G. O. (Orgs.). Linguagens e narrativas: desafios feministas, v.1. Tubarão: Ed. Copiart.

MELLO, A. G. . Deficiência, incapacidade e vulnerabilidade: do capacitismo ou a preeminência capacitista e biomédica do Comitê de Ética em Pesquisa da UFSC. Ciência & Saúde Coletiva (Online) , v. 21, p. 3265-3276, 2016.

GAVÉRIO, Marco Antonio; Mello, Anahi Guedes de ; Block, Pamela. `With the Knife and the Cheese in Hand! . In: Maria Berghs; Tsitsi Chataika; Yahya El-Lahib; Kudakwashe Dube.. (Org.). The Routledge Handbook of Disability Activism. 1ed.London: Routledge, 2019, v. , p. 259-273.

Intersecções entre Deficiência e Sexualidade nas áreas da Educação

Semana passada, quinta feira – 06/08/20, pude contribuir com o Núcleo de Acessibilidade da UFCat – GO em uma conversa interna sobre algumas dimensões políticas entre deficiência e sexualidade. O Núcleo é atualmente coordenado pela professora Wanessa Ferreira Borges e contou com os e as estudantes da Universidade que são considerados “público alvo da Educação Especial”. O debate também contou com a participação do professor Leonardo Cabral, da UFSCar, ao qual também agradeço pelas pontes e contato com os e as colegas da UFCat. Para a reunião foi lido meu artigo “Medo de um Planeta Aleijado?” e também foi recomendado o filme “Hasta la Vista“.

Deficiência e Capacitismo

Salve, Camaradas!

Nós últimos meses tenho recebido variados convites para discutir as dimensões entre a deficiência e capacitismo em uma chave sociológica. Dessa vez tive o prazer de poder discutir a temática em um podcast de duas partes da Central PCD.

Logo da Central PCD

Nos links abaixo vocês podem acessar as duas partes do meu diálogo com o ativista e estudante da UERJ Acauã Pozino. O primeiro episódio saiu semana passada e a segunda parte acabou de ser publicada:

Capacitismo, parte 1

Capacitismo, parte 2

Sexualidade e Deficiência nos debates da área da Saúde

Salve, Camaradas!

[Disclaimer: Depois de um tempo distante do blog, estou conseguindo retomar a ideia de manter postagens mais constantes por aqui. E vou começar essa retomada de postagens com os convites de intervenção pública que venho recebendo nos últimos meses. A ideia também é deixar aqui no blog a minha agenda de participações em espaços midiáticos, políticos e de pesquisa científica]

Marco Antônio Gavério é cientista social, mestre e doutorando em Sociologia pela UFSCar. A partir de perspectivas sociológicas suas investigações giram em torno da deficiência como uma categoria sociocultural e histórica. Nesse sentido, observa como essa categoria emerge em correlação às teorizações e práticas sobre o corpo, a sexualidade e, mais atualmente, a saúde. Autodescrição: Marco tem a pele branca, usa óculos de armação avermelhada e cadeira de rodas. É magro, tem cabelo curto, usa barba e possui uma tatuagem no pescoço no lado esquerdo.

Ontem, 29/07/2020, tive o prazer de poder participar de uma reunião da Liga Acadêmica de Atenção à Pessoa com Deficiência – L.A.P.P.D. A L.A.P.P.D. É coordenada pela professora e terapeuta ocupacional Larissa Galvão. Galvão também é docente da Universidade Federal de Sergipe, UFES, campus Lagarto.

Apesar de ter sido considerada uma aula, conseguimos formatar um debate a partir da leitura pelo grupo da minha dissertação de mestrado. Também indiquei aos e as ligantes o filme, Quid pro Quo; o paper que escrevi em parceria com a pesquisadora Cristiane V. Mello, “Estranhos Online: Notas de Pesquisa Sobre o Corpo por meio das Mídias Digitais” (2019); e o podcast do Larvas Incendiadas que participo falando também dessa pesquisa.

Atualmente, pesquisando algumas práticas e discursos das áreas da Saúde, tem me interessado muito observar como os e as profissionais vem buscando se debruçar sobre as perspectivas históricas e socioculturais da deficiência e sexualidade. Essa interface produtiva entre Ciências Sociais e Ciências da Saúde é fundamental para pensarmos nossas atuais configurações políticas contemporâneas entre o corpo e a sociedade.

Deficiência e Austeridade no Circuito Global: Um relato do Minicurso de Robert McRuer no Brasil

O que é austeridade? Como ela tem se disseminado internacionalmente desde as últimas crises capitalistas advindas do Norte Global? Como austeridade e deficiência se coligam nos tempos atuais? Quais as resistências possíveis aos constantes cortes governamentais que produzem políticas públicas ‘universalizantes’ e às saídas sempre milagrosas de ‘mercado’ para os ‘desprotegidos’? Essas questões emergiram como introdução aos debates que rondaram o minicurso ‘Tempos Aleijados: Deficiência, Globalização e Resistência’ ministrado pelo professor Robert McRuer da George Washington University, na Universidade Federal de São Carlos a convite e realização do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da universidade e do grupo de pesquisa Sexualidade, Entretenimento e Corpo (SEXent). Continuar lendo “Deficiência e Austeridade no Circuito Global: Um relato do Minicurso de Robert McRuer no Brasil”

Nós não queremos ficar: políticas do cuidado, violência e deficiência


No dia 23 de maio de 2018 a organização internacional Human Rights Watch (HRW) liberou um relatório chamadoEles Ficam Até Morrerque reporta as condições extremamente precárias, violentas e abusivas de abrigos brasileiros que se destinam, ironicamente, aos “cuidados” de pessoas com deficiência.

O relatório, que foi muito compartilhado pela grande mídia e nas redes sociais, parece ter gerado algo que se liga intimamente às representações culturais e experiências deficientes: a comoção. De fato, o relatório da HRW trouxe dados que materializam e publicizam, através de um importante registro de pesquisa, a situação vigiada das pessoas com deficiência que residem nesses supostos abrigos. Contudo, mesmo o relatório enfatizando que essa problemática é correlata a falta de uma rede de políticas públicas efetivas que garantam a autonomia dos sujeitos que necessitam de cuidados íntimos e pessoais intensivos feito por terceiros, o que ficou saliente publicamente foi um certo sentimento de: “meu deus, onde residem essas pobres criaturas?!”

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#ÉCapacitismoQuando: Nick Vujicic vem para o Brasil!

 

Me lembro da primeira vez que vi Nick Vujicic. Já faz um bom tempo. Foi por coincidência através de um de seus vídeos no YouTube [assista aqui]. Nick aparecia intrépido, comunicativo, motivador. Sem as pernas e braços, Nick, sobre uma mesa, palestra para milhares de espectadores. Eles e elas olham hipnotizados para Nick, que retribui com doces olhares, sorrisos sinceros e esperança no tom da fala. O vídeo mescla esses momentos com informações da vida de Nick, a falta congênita de seus membros, seus projetos filantrópicos, sua família, sua paixão por golf.

De repente, as imagens focalizam os rostos dos espectadores. Olhos marejados com lágrimas escorrendo enquanto Nick continua a motivar-lhes e a dizer: “A vida é boa! Se eu consegui sem meus braços, claro que vocês conseguem!” A plateia vai ao delírio e todos aplaudem Nick pensando: se até ele é feliz, sem braços e pernas, do que eu posso reclamar, meu Deus? Nick sorri o sorriso dos justos enquanto agradece com a cabeça os efusivos aplausos. Mas o Gran finale está sempre no por vir. Nick oferece uma sessão de abraços a seus espectadores ao fim de sua palestra. Todos aproveitam a oportunidade de abraçar esse exemplo de vida sem braços que é Nick Vujicic e tentam, talvez, sublimar seus pecados se aproximando de tamanha figura inspiradora. Nick é abraçado sistematicamente em meio a muitas lágrimas e soluços de sua plateia. Continuar lendo “#ÉCapacitismoQuando: Nick Vujicic vem para o Brasil!”

NÓS TAMBÉM FODEMOS! – O DOCUMENTÁRIO YES, WE FUCK! E SUA RECEPÇÃO NO BRASIL*

Não é raro, quando eu chego nos lugares em minha cadeira de rodas, as pessoas começarem a me encarar, encarar meu corpo, meus gestos. Percebo uma diversidade de olhares, uns mais pesarosos, outros mais ousados, mas todos curiosos. Meu corpo-cadeira-de-rodas causa incomodo e uma espécie mórbida de atração. Sinto que vivo em uma fronteira muito específica: entre o desejo curioso em meu corpo e a repulsa que desejá-lo provoca. Interessante é também experimentar essa a fronteira entre o desejo e a repulsa quando falo publicamente sobre minhas pesquisas sociológicas em torno de pessoas sem deficiência que 1) se atraem sexualmente por deficientes ou que 2) sentem a necessidade de se transformar em pessoas deficientes[i].

“Como é possível alguém desejar sistematicamente corpos deficientes? Como é possível alguém “normal” buscar amputar uma perna? Como esses indivíduos vivem? Essas pessoas realmente existem?” Essas são algumas questões que vem à mente das pessoas quando me apresento e ajudam a demonstrar que uma das curiosidades mais pontuais sobre os aspectos da vida das pessoas com deficiência é sobre seu corpo e sua ‘sexualidade’.

A partir do momento que mostramos interesse afetivo em alguém até o ponto em que temos desejo de explorar sexualmente nosso próprio corpo, as pessoas com deficiência são desacreditadas na sua capacidade de construir relações eróticas e afetivas. O documentário espanhol de 2015 Yes, We Fuck!, dos diretores Antonio Centeno e Raul de la Morena, faz a importante tarefa de desmitificar a vida sexual das pessoas deficientes, não só mostrando que elas fodem das mais diversas maneiras, mas também explorando formas menos padronizadas de nos relacionarmos intimamente com nossos corpos e com os corpos de outras pessoas. Continuar lendo “NÓS TAMBÉM FODEMOS! – O DOCUMENTÁRIO YES, WE FUCK! E SUA RECEPÇÃO NO BRASIL*”